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Publicado: 8 setembro, 2009 em pensamentos
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Acordou mas não abriu os olhos.

Sentiu-se subtamente absurdamente cansada de tudo.

De todos.

E desejou novamente estar bem longe dali.

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comentários
  1. fromexile disse:

    Tentou dormir
    e de olhos abertos
    sentiu-se lentamente
    completamente
    incandescente
    por nada
    Por ela
    E desejou novamente estar bem perto,
    ali.

    Ali.

  2. entremares disse:

    Era uma vez um sapo.
    Sabem? Daqueles sapos verdes de jardim, de pele verde e molhada, longas pernas saltitantes e uma vontade incontrolável de saltar, saltar… estar sempre a saltar.
    E era uma vez… também, uma rapariga de olhos tristes, longos cabelos entrançados e voz suave, tão suave como o canto dos pássaros.
    E perguntam… o que têm em comum esta rapariga e este sapo, para além da improvável coincidência de partilharem a mesma casa… e o mesmo jardim ?
    Pois bem… nada. Ou melhor, nada… até este preciso momento.
    Porque, a partir de agora… eles vão encontrar-se… e só aqui, começa esta história.

    – Posso beijar-te?
    Os sapos não torcem o nariz… mas naquele momento, foi o que lhe apeteceu fazer. Já não lhe bastava estar assim, indefeso às mãos daquela criatura… para ainda por cima receber aquele tão estranho pedido? Não, certamente que não.
    – Não estou a ver o propósito – respondeu ele, galantemente. – Vós sois humana, uma linda jovem talvez, mas aos meus olhos todos os humanos me parecem iguais… e não é muito natural pedirem o beijo a um sapo…
    Ela acomodou-o melhor sobre a palma da mão, sorrindo-lhe.
    – Tens razão, ó sapo… mas sabes… eu preciso mesmo de te beijar, de te beijar com paixão… e de ser correspondida. Só assim se quebrará o encantamento…
    O sapo não se sentiu minimamente tocado com a suavidade do pedido.
    – Lamento, minha jovem… mas não estou disponível… talvez se procurardes dentro da casa, certamente encontrareis um jovem, humano como vós, certamente muito mais atraente que eu…
    Ela mordeu o lábio, naquele jeito feminino tão eficaz de demonstrar tristeza, uma quase súplica. Mas o sapo não entendeu assim. Aliás, e para esclarecimento dos nossos prezados leitores, os sapos não partilham com os humanos essa série infindável de pequenos gestos e trejeitos que, parecendo significar uma coisa, querem dizer exactamente o oposto. Não percebeu portanto, a urgência da situação.
    – Minha linda menina… se me permitis… eu até estou com uma certa pressa…
    Ela agarrou-o com firmeza.
    – Não, não e não. Olha para mim… por favor. Não me reconheces?
    O sapo nem conseguia desviar o olhar, pois que ela já o colara práticamente ao seu rosto.
    – Pois… não… lamento, talvez já nos tenhamos cruzado por aí, certamente, não digo que não… mas não estou a ver…
    – Mas sou eu, sapo… sou eu…
    O sapo ainda tentou espremer-se para fora daquele abraço, mas a rapariga segurava-o com demasiada convicção.
    Previu que lhe ia acontecer o pior… e não se enganou.
    Ela puxou-o para si e, sem aviso, sufocou-o num beijo prolongado, imobilizando-lhe os membros, prendendo-lhe a respiração.
    Durante um longo, um enorme instante… só conseguiu… beijá-la.

    E então… sentiu-se cair, desamparado, sobre a relva do jardim. Uma névoa espessa rodeou-os, vinda do nada, ao mesmo tempo que uma claridade irreal brotava das ervas e das pedras, bem por baixo do chão que pisavam. Ficou cego de luz.

    Quando finalmente conseguiu abrir os olhos… sentiu que algo de tremendamente estranho lhe acabara de acontecer. Caída na relva, bem à sua frente, jazia imóvel o rosto mais belo que algum dia vira, em toda a sua vida. Uma sapo verde, de um verde de muitas tonalidades, boca carnuda, patas delicadas, um brilho misterioso a rodear-lhe todo o corpo, envolvendo-a numa auréola, como se ali tivesse acabado de nascer.

    – Ro-Ro-… Rosita… minha princesa… mas o que é…

    Ela abriu os olhos, ainda combalida com a dolorosa metamorfose, e sorriu-lhe, com aquele sorriso que ele nunca esquecera, mas que há tanto tempo não via.

    – Rosita… és mesmo tu?
    Ela acenou que sim, que era.

    Não vamos maçar agora os nossos prezados leitores com os pormenores, mas certamente recordam todos a história, quando a bela princesa dos sapos foi transformada em humana, pela bruxa má dos pântanos. O feitiço só terminaria quando a jovem humana voltasse a encontrar o príncipe dos sapos, e o conseguisse beijar de novo, voltando então a assumir a sua verdadeira aparência.

    O sapo não conseguia emitir nenhum som, mudo de espanto.
    Foi ela que tomou a iniciativa.

    Com um salto decidido, acercou-se do charco e lançou-lhe o desafio:
    – Então… já não te lembras como era? Primeiro tinhas que me conseguir apanhar…
    E coaxando alegremente, mergulhou nas águas sujas do charco.

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